O que os operadores raramente lhe contam: as suas chamadas já são VoIP
Quase toda a voz fixa em Portugal já passa por VoIP, e as chamadas em 4G e 5G também. De onde vem a má fama, o que mudou e o que faz, de facto, uma boa chamada.
Ainda há quem torça o nariz quando ouve falar em VoIP. A palavra lembra chamadas a cortar, eco, atrasos e soluções baratas que "às vezes funcionam". Há uma boa probabilidade de a chamada que fez hoje de manhã, do escritório ou do telemóvel, já ter sido VoIP. Só ninguém lho disse.
A sua linha fixa já é VoIP
No final de 2025, 88,8% dos acessos do serviço telefónico fixo em Portugal eram VoIP, segundo a ANACOM. Isto inclui as linhas que chegam por fibra e por cabo, entregues pelo mesmo router da Internet. As linhas analógicas tradicionais já só eram 2,3%.
Não é por acaso. A fibra já é a principal forma de acesso à Internet em local fixo, com 72,2% dos acessos. E quando a linha chega por fibra, a voz viaja pela mesma rede, em IP.
Por isso, quando hoje se fala em "linha fixa", na prática fala-se quase sempre de voz sobre IP.
E o telemóvel também
No telemóvel acontece o mesmo. As chamadas feitas em 4G usam o VoLTE, que é voz sobre IP na rede móvel, e no 5G o equivalente chama-se VoNR. Em Portugal, o VoLTE foi disponibilizado pela primeira vez em 2015, e hoje os quatro operadores móveis com rede própria têm-no.
É por isso que as chamadas entre telemóveis modernos soam mais nítidas do que há dez anos: a voz em alta definição que os operadores anunciam é, precisamente, VoIP.
O resto da Europa já desligou o cobre
Portugal não é caso único. Em Espanha, as últimas centrais telefónicas de cobre foram desligadas a 27 de maio de 2025, e todo o serviço passou para fibra e redes móveis. No Reino Unido, a rede analógica é desligada até 31 de janeiro de 2027. A Suécia e a Noruega fizeram-no ainda antes.
O caminho é o mesmo em todo o lado: a voz passa a viajar sobre IP.
De onde vem a má fama
A desconfiança tem razão de ser, só que está desatualizada. No início dos anos 2000, o VoIP chegou através de programas no computador e de ligações à Internet lentas e instáveis. As chamadas atravessavam a Internet pública sem qualquer garantia, e bastava alguém em casa descarregar um ficheiro para a conversa começar a falhar.
Ao mesmo tempo, o VoIP apareceu associado a chamadas baratas ou gratuitas. Barato e pouco fiável passaram a ser a mesma coisa na cabeça de muita gente.
O que mudou
Quase tudo:
- A ligação. A fibra trouxe largura de banda de sobra e, sobretudo, estabilidade. Uma chamada ocupa menos de 100 kbit/s, uma fração mínima de uma ligação atual.
- As redes. Os operadores transportam a voz em redes próprias e geridas, com prioridade para o tráfego de voz, e não em "qualquer Internet".
- Os equipamentos e os codecs. Telefones IP, centrais e aplicações foram feitos para isto, com codecs pensados para a voz.
O que faz, de facto, uma boa chamada
A qualidade não depende do nome da tecnologia. Depende de quatro coisas:
- A ligação à Internet. Mais do que a velocidade, conta a estabilidade. Uma fibra estável chega perfeitamente para várias chamadas em simultâneo.
- A rede do operador, e a forma como se liga às outras redes, fixas e móveis.
- O equipamento e a configuração. Um router mal configurado é a causa mais comum de problemas. Por exemplo, a função "SIP ALG" de muitos routers interfere com as chamadas e deve estar desligada.
- O codec, ou seja, a forma como a voz é comprimida. É o que decide se a chamada soa como uma linha tradicional ou em alta definição.
Quando uma chamada VoIP corre mal, quase sempre a causa está na ligação ou na configuração, e não na tecnologia. É por isso que um bom operador não se limita a vender a linha: ajuda a configurá-la.
VoIP de operador não é uma aplicação
Há uma diferença entre ligar por uma aplicação de mensagens e ter uma linha VoIP de um operador. Um operador registado na ANACOM atribui números portugueses, geográficos ou nómadas, permite a portabilidade dos números que a empresa já tem, liga-se a todas as redes fixas e móveis, e presta o serviço com condições reguladas.
E para quem liga para a sua empresa nada muda: os clientes continuam a marcar o mesmo número de sempre.
O que muda para a sua empresa
Se a sua empresa ainda tem linhas analógicas ou RDIS, a mudança é uma questão de tempo, e costuma baixar a fatura. O caminho depende de como trabalha:
- Já tem central telefónica? As linhas SIP ligam-na à rede, por Internet, mantendo o equipamento e os números.
- Não tem central? A Central Virtual inclui a central na nuvem e as linhas, sem equipamento para instalar.
- Gere muitas chamadas, ou também atende por WhatsApp e email? O Let's Call One junta as chamadas e as mensagens na mesma plataforma, com filas, distribuição pela equipa e o histórico de cada cliente.
Para saber de quantas linhas precisa, veja o guia Canal, número e extensão.
Fontes
- ANACOM, O Sector das Comunicações em 2025: acessos do serviço telefónico fixo por tecnologia e acessos à Internet por fibra.
- CNMC, Adiós definitivo al cobre (27 de maio de 2025).
- BT, Digital Switchover.
- Pplware, VoLTE em Portugal (2015).